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Sobre a "Crise Sombria"

Crise Sombria 1 - 128 pgs. - R$ 34,90 Começou a grande e última saga da DC Comics. E muitas das leituras espalhadas desde edições especiais ...

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quinta-feira, 29 de março de 2018

O Proálcool


A utilização do álcool como combustível automotivo no Brasil começou a segunda metade da década de 1970, quando o mundo amargava os efeitos da crise do petróleo. Então o governo brasileiro implantou o Proálcool (Programa nacional do Álcool), baseado  em incentivos fiscais e outras formas de subsídios oferecidos aos produtores de álcool (usineiros) e às indústrias automobilísticas. O Proálcool possibilitou  a oferta de veículos e combustível mais barato aos consumidores. O governo acreditava numa gradativa substituição do veículo a gasolina pelo veículo a álcool. De fato, na segunda metade da década de 1980, as vendas de carros a álcool chegaram a dominar o mercado de veículos. A euforia do Proálcool contribuiu para o agravamento de alguns problemas , entre os quais , a elevação da dívida pública (pois com os fartos subsídios  governamentais - isenção fiscal e empréstimos a juros abaixo das taxas de mercado - a União passou a arrecadar menos) e a substituição de grandes extensões de pequenas propriedades agrícolas de  alimentos por grandes latifúndios monocultores de cana-de-açúcar , o que agravou a questão fundiária no Brasil. No início da década de 1990 , a queda do preço do petróleo diminuiu a diferença entre o preço do álcool e da gasolina. Com a gasolina mais acessível e as constantes cries de abastecimento de álcool - os usineiros passaram a priorizar a produção de açúcar para  mercado internacional , que se mostrava mais lucrativo que o mercado interno - , o Proálcool começou a cair do descrédito dos consumidores e dos fabricantes de veículos , que retornaram para os  carros movidos a gasolina.  Atualmente , com o lançamento de automóveis "flex-power", modelo que funciona com os dois tipos de combustíveis - gasolina e álcool -, a produção de álcool foi revigorada . O setor pode vir a contar com a criação de um novo programa e com a volta dos subsídios  governamentais. Contribui também para a criação de um "novo proálcool" o potencial de exportação de álcool combustíveis para o Japão, a Índia e o Estados  Unidos , países que já manifestaram interesse em comprar o produto do Brasil. Em 2003, a produção brasileira respondia por cerca de 30% da produção mundial. Em 2005, com a entrada em vigor do protocolo de Kyoto , o mercado de álcool combustível amplia ainda mais as suas possibilidades de exportação  para  países que têm compromisso em reduzir suas emissões de gás poluente e cumprir as metas estabelecidas pelo protocolo. 


domingo, 25 de março de 2018

O Primeiro Reinado : Crise e Autoritarismo

Com a independência e o nascimento do novo país, havia a necessidade de promover sua organização política e garantir sua integridade territorial . A identidade nacional ainda era algo muito  distante e havia um forte descompasso entre o norte e o centro-sul , onde o processo de centralização efetivamente ocorreu. Isolada da capital , a províncias situadas ao norte da Bahia constituíram mundos  diferentes. Seus contatos marítimos e seus governos locais continuavam muito ligados à Portugal . Nessas regiões , para comerciantes e militares portugueses, a independência significava a perda de seus privilégios. Por isso, muitos resistiram a ela e, apoiados por tropas metropolitanas , provocaram a eclosão de breves conflitos. Com o apoio de mercenários estrangeiros , porém , logo o governo central se impôs na região. Na arena política da capital , sob a influência de Joaquim Gonçalves Ledo, ligado ao grupo  que defendia uma posição mais próxima ao liberalismo radical , foi convocada uma Assembleia Constituinte . Todavia , entre os impulsos autoritários do imperador e a posição liberal moderada da maioria dos constituintes, logo surgiram greves e tensões políticas , que levaram à dissolução da Assembleia. Com isso, em 1824, sob as ordens de D. Pedro I, um Conselho de Estado redigiu a Constituição do Império do Brasil. O texto constitucional estabelecia a monarquia hereditária e unitária como forma de governo. Inviolável e sagrado , o imperador exerceria dois poderes . Além disso nomeava senadores vitalícios , escolhia os presidentes das províncias, indicava e removia juízes e tinha direito ao veto absoluto à leis. Daí o nascimento de u Estado autoritário e centralizado. Como o voto era indireto e censitário , os direitos político ficavam restritos aos indivíduos mais abastados. Dessa forma , o Império do Brasil se  estruturava sobre as bases elitistas e conservadoras , promovendo pequenas adaptações na burocracia colonial e mantendo a religião oficial católica e o padroado régio. Expressando um liberalismo de fachada , de forma contraditória , a Constituição Imperial omitia a existência da escravidão . Além disso , deixava uma lacuna quanto à sucessão de D. Pedro ao trono de Portugal , o que levava à desconfiança geral sobre a possibilidade de reunificação luso-brasileira. No âmbito externo , a muito custo , o Brasil obteve o reconhecimento de sua independência . Primeiramente , foram o Estados Unidos , que buscavam uma aproximação  com as outras nações do continente americano. Em 1825, a independência foi reconhecida por Portugal , por meio do pagamento de 2 milhões de libras esterlinas, emprestadas dos ingleses. O reconhecimento da Inglaterra, por sua vez , exigiu a renovação dos tratados comerciais de 1810. No entanto, internamente , a situação política de D. Pedro I foi se deteriorando . Em 1824, após o fechamento do Constituinte , eclodiu uma nova revolta política, de inspiração liberal, em Pernambuco, nela, destacou-se Frei Caneca,  uma padre carmelita muito popular que fazia, na imprensa local, duras críticas à centralização política e fiscal. Opondo-se ao novo presidente da província , nomeado por D. Pedro I, o então governador Paes de Andrade proclamou a Confederação do Equador, com o propósito de fundar uma república federativa , aos moldes norte-americanos , em Pernambuco e regiões próximas, A rebelião se espalhou e conseguiu a adesão das províncias do Rio Grande do Norte , do Piauí e do Ceará . A reação do governo central , porém , não tardou . Mercenários ingleses e tropas financiadas por proprietários rurais foram mobilizados para reprimir a ação dos confederados . Os principais líderes foram condenados à morte e executados. A crise política do Primeiro Reinado , entretanto , agravou-se . A hostilidade aos comerciantes portugueses  vistos como os principais responsáveis pelo aumento dos preços dos insumos básicos ; os recrutamentos forçados para as desastrosas guerras contra a independência da Cisplatina e a crise econômica , que aguçava a inflação, ajudavam a diminuir o prestígio do imperador. A sucessão do trono português , aberta com a morte de D. João , aumentou a desconfiança da população em relação às reais intenções de D. Pedro. Manifestações populares contra o autoritarismo e a centralização eclodiram na capital. Perante a grande pressão política , em 1831, D. Pedro I abdicou em favor de seu filho Pedro de Alcântara , de apenas cinco anos. Assim , o Primeiro reinado foi um período em que a instabilidade política deu origem a um absolutismo precário. A aliança do príncipe português com os "brasileiros" , a qual havia garantia a independência , revelou-se efêmera . De fato , dividido entre o Brasil e Portugal , D. Pedro I se aproximou do grupo "lusitano"  e, om seu apoio , passou a governar de forma autoritária . Daí a grande oposição política , a lusofobia e a abdicação , que completou o processo de independência . 



terça-feira, 20 de março de 2018

Compensação Indesejada



Mais um efeito danoso do aumento da poluição acaba de ser destacado em um novo estudo. A pesquisa indica que a medida que aumentam os níveis de dióxido de carbono as plantas se tornam mais vulneráveis ao ataque de insetos. Segundo o trabalho, feito por cientistas argentinos e norte-americanos , a elevação do dióxido de carbono afeta um componente importante no sistema de defesa das plantas. Os autores ressaltam que a combinação entre desflorestamento e queima de combustíveis fósseis promoveu um grande aumento nos níveis de dióxido de carbono desde a segunda metade do século 18. "Atualmente, o CO2 na atmosfera está em cerca de 380 partes por milhão. No início da Revolução Industrial, era de 280 partes por milhão (...), disse Evan DeLucia , chefe do Departamento de Biologia de Plantas da Universidade de Illionois em Urbana-Champaign e um dos autores do estudo. DeLucia lembra que a atual previsão é de que os níveis chegarão a 550 partes por milhão até 2050 - ou até antes , a depender da acelerada industrialização de países em desenvolvimento , como China e Índia. O estudo usou as instalações do Soybean Free Air Concentration Enrichment, em Illionois , espécie de laboratório ao ar livre que permite expor plantas a diferentes níveis de dióxido de carbono ou ozônio sem ter que isolá-las de outras influências ambientais, como chuva , luz solar ou insetos. Sabe-se que níveis atmosféricos elevados de CO2 contribuem para acelerar a taxa de fotossíntese e aumentar a proporção de carboidratos . Ou seja, em teoria estimulariam um maior crescimento nas plantas. O problema é que esse aumento na proporção de carboidratos faz com que os insetos comam mais folhas. No estudo, feito em soja, as plantas na área de teste exibiram mais sinais de danos causados por diversas espécies de insetos em suas folhas do que em outras áreas. Os pesquisadores verificaram ainda que insetos em plantas de soja submetidas a maiores níveis de dióxido de carbono viveram mais e , como consequência, se reproduziram mais. O mesmo não ocorreu com insetos submetidos à dieta com mais açúcar , que os autores usaram como comparação. O grupo responsável pelo estudo voltou a atenção para os caminhos de sinalização hormonal das plantas , especialmente para os componentes químicos específicos que elas produzem para evitar o ataque de insetos. Quando insetos comem folhas, algumas plantas como a soja produzem ácido jasmônico, um hormônio que inicia uma cadeia de reações químicas nas folhas que aumenta a capacidade de defesa. Normalmente, essa sequência de efeitos leva à produção de altos níveis de um composto chamado de inibidor de protease , uma enzima que , ao ser ingerida por um inseto, inibe a capacidade de digerir folhas. "Descobrimos que as folhas que crescem sob altos níveis de CO2  perdem a capacidade de produzir ácido jasmônico. O caminho de seu sistema defensivo se desliga e as folhas não conseguem mais se defender adequadamente", disse DeLucia. "Os resultados indicam que eventuais aumentos na produtividade da soja devido à elevação dos níveis de CO2 podem ser reduzidos pelo aumento à suscetibilidade a pragas", destacaram os autores no artigo.

Dados obtidos em : http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro?.php?id=8602. Acesso em: em 25 mar. 2008


sábado, 17 de março de 2018

Talassociclo


Cobrindo cerca de 71% globo terrestre, os oceanos e os mares formam  o maior biociclo.  Na água as condições climáticas estão menos sujeitas a mudanças . Por exemplo, a variação de temperatura é bem menor que no meio terrestre por causa da circulação da água , que também contribui para a distribuição  uniforme dos continentes químicos desse biociclo. O resultado é que há  um número menor de habitats e de nichos ecológicos , o que torna sua diversidade de espécies inferior à do epinociclo.  Os oceanos podem ser divididos de acordo com a profundidade em :

1- Zona litorânea ou intertidal , entremarés ou sistema litorâneo - corresponde à região entre a maré alta e a baixa; 2- Zona nerítica ou sistema nerítico - corresponde à região do mar com até cerca de 200 m de profundidade sobre a plataforma continental (parte submersa dos continentes); esta tem um declive suave e se estende , em média , até uma distância de 70 km do litoral;

3- Zona batial ou sistema batial - situa-se , em média , entre 200 m e 2 km de profundidade;

4- Zona abissal ou sistema abissal - encontra-se a mais de 2 km de profundidade. A variação da luz em função da profundidade influencia a distribuição dos seres vivos do biociclo marinho. 

5-Eufótica ou Fótica - Região bem iluminada, que vai até cerca de 200 m de profundidade; é rica em seres autotróficos e, consequentemente , em consumidores;

-Afótica- abaixo da anterior , onde a intensidade de luz é insuficiente para a realização da fotossíntese; não são encontradas algas microscópicas. Os seres heterotróficos dependem da matéria orgânica vinda da zona eufótica (alguns autores preferem usar a expressão zona afótica para regiões sem luz e zona disfótica para regiões mal iluminadas). No alto-mar , a maior parte dos sais minerais , fundamentais para o desenvolvimento dos organismos produtores , encontra-se em grandes profundidades, mas a intensidade de luz ótima para fotossíntese só atinge as águas mais superficiais. Por isso, as regiões mais produtivas dos mares (onde se desenvolve a maior variedade de seres vivos) situam-se próximo às regiões costeiras, cujas águas pouco profundas contam com esses dois fatores em quantidade mais adequadas. A vida aquática é particularmente rica nos estuários , regiões da costa parcialmente fechadas onde os rios se encontram com o mar e, portanto, há maior disponibilidade de sais minerais.  Em algumas regiões costeiras , existem correntes marítimas , chamadas correntes de ressurgência , que levam os sais minerais do fundo para a superfície iluminada. Esse fenômeno aumenta o número de produtores e , em consequência , de consumidores, o que torna a região propícia à pesca.  Outras regiões de grande produtividade são os recifes de corais , que se desenvolvem em águas quentes e pouco profundas das regiões tropicais e subtropicais. Os corais obtêm boa parte de seu alimento de algas que vivem dentro do corpo deles. Em troca , fornecem a elas sais minerais e gás carbônico. As algas também possibilitam aos corais a transformação dos sais de cálcio da água do mar em carbonato de cálcio, base do esqueleto do coral. Além de proteger o litoral da erosão provocada pelas ondas , esses recifes servem de abrigo para imensa variedade de organismos. Os corais estão ficando brancos. Isso significa que eles estão perdendo suas algas e, sem elas , sua sobrevivência fica ameaçada. Suspeita-se que um dos responsáveis seja o aumento da temperatura ( a alga morre quando a temperatura aumenta) provocado pelo aquecimento global do planeta ou por outros fenômenos climáticos. Embora os recifes de corais correspondem a menos de 1% da área dos oceanos, eles servem de abrigo para 2 milhões de espécies ou 25% da vida marinha.

terça-feira, 13 de março de 2018

A Multipolaridade Econômica [Dados dos Anos 2000]


Enquanto a Guerra Fria seguia a sua trajetória , outros países desenvolviam-se tecnologicamente em diversos setores industriais , conquistavam fatias expressivas no mercado internacional e ganhos de produtividade superiores aos dos Estados Unidos. Os que tiveram maior crescimento , na segunda metade do século XX, foram justamente os dois grandes derrotados na Segunda Guerra Mundial: O Japão e a ex-Alemanha Ocidental. No início da década de 1950 , o valor da produção de mercadorias e de serviços dos Estados Unidos, incluindo as rendas geradas fora do seu próprio território , ou seja, o PNB (produto Nacional Bruto) , era superior ao do conjunto dos países da Europa Ocidental e Japão. A renda per capita norte-americana era pelo menos quinze vezes superior á japonesa e quatro vezes superior à alemã. Esse quadro mudou. A partir da década de 1970 , Alemanha e Japão atingiram taxas de crescimento superiores ás da economia dos Estados Unidos. A Alemanha , particularmente , acabou também sendo beneficiada pelo sucesso da integração ao Mercado Comum Europeu, atual  União européia. Em 1990 , com a reunificação , ela reafirmou-se como maior potência da União Europeia , por causa do fortalecimento das  relações com os países que formavam o bloco socialista no Leste europeu, por meio da expansão das empresas alemães e da ampliação dos intercâmbios comerciais e financeiros com aqueles países. No entanto, ao longos dos anos 1990 - um período de grande aceleração do processo de globalização e de desenvolvimento das tecnologias de informação, da informática , das telecomunicações, das atividades legadas às finanças e ao entretenimento -, os Estados Unidos tiveram um crescimento econômico expressivo (média de 3,2% ao ano) superior ao do Japão (média de 1,4% ao ano), que enfrentou anos de recessão e crises no sistema bancário , e ao da Alemanha (média de 1,9% ao ano), que sentiu o custo da absorção da porção oriental. Enfim , a globalização , um processo de aceleração do sistema capitalista sem precedentes na história, aumentou ainda mais o poderio econômico da chamada Tríade: o Japão , a União Européia (liderada pela Alemanha) e os Estados Unidos respondem por cerca de 70% do PIB mundial e por 80% dos investimentos diretos no exterior. No entanto, é preciso considerar , neste início de século XXI , a formação de mais uma potência na Ásia: a China. Esse país , que detém arsenal nuclear, é a quarta potência mundial em termos de comércio exterior (as primeiras são : Estados Unidos , japão e Alemanha, nesta ordem) e a sexta maior economia do mundo. A China tem o maior contingente populacional do globo - cerca de 1,3 bilhões de habitantes-, que constitui um mercado em expansão , e uma economia que cresce mais de 7% ao ano (10 % ao ano , em média , no período 1990-2000). A Rússia , por sua vez,  integra o G-8² , apesar  de enfrentar uma etapa difícil de transição da economia centralmente planejada para uma  economia de mercado , às voltas com crises econômico-financeiras, aumento da pobreza e da corrupção , concentração de renda e guerras separatistas. Mas é a segunda potência nuclear no planeta e, em seu imenso território , dispõe de grandes reservas minerais inclusive petróleo. Além disso, mantém relações de cooperação com o Irã -  país importante no  contexto geopolítico do Oriente Médio - para a construção  de reatores  nucleares, acordos militares com a  Índia e , desde julho de 2001 (quando assinou com os chineses um acordo de amizade), busca estreitar  relações políticas com  a China.


sexta-feira, 9 de março de 2018

Sabe Com Quem Está Falando?



"Pelo reconhecimento social extensivo e intensivo em todas as camadas , classes e segmentos sociais, em jornais, livros , histórias populares , anedotário e revistas , a forma de interação balizada pelo 'sabe com quem está falando'? Parece estar mesmo implantada - ao lado do carnaval , do jogo do bicho, do futebol e da malandragem - no nosso coração cultural. [...] Outro traço do 'sabe com quem está falando?' é que a expressão remete a uma vertente indesejável da cultura brasileira. Pois o rito autoritário indica sempre uma situação conflitiva , e a sociedade dependente, colonial e periférica, a nossa tem um alto nível de conflitos e de crises . Mas  entre a existência da crise e o seu reconhecimento existe um vasto caminho a ser percorrido. Há formações sociais que logo buscam enfrentar as crises , tomando-as como parte intrínseca de sua vida política e social, enquanto , em outras ordens sociais , a crise e o conflito não inadmissíveis. Numa sociedade a crise indica algo a ser corrigido; noutra , representa o fim de uma era , sendo sinal de catástrofe . Tudo indica que, no Brasil , concebemos os conflitos como presságios do fim do mundo , e como fraquezas - o que torna difícil admití-los como parte de nossa história , sobretudo nas suas versões oficiais e necessariamente solidárias. [...] Ora , o que o estudo do 'sabe com quem está falando?' permite realizar é a descoberta de uma espécie de paradoxo numa sociedade voltada para tudo o que é universal e cordial , a descoberta do particular e do hierarquizado. E essa descoberta se dá em condições peculiares: há uma regra que nega e reprime o seu uso. Mas há uma prática igualmente geral que estimula seu emprego. [...] Assim, o carnaval é gritado e o 'sabe com quem está falando?' , escondido. Um é assunto de livros e de filmes ; O outro, de eventuais artigos antropológicos , não sendo posto no rol das coisas sérias e agradáveis , como o futebol , o jogo do bicho e a cachaça. [...] Mas, para tornar a situação complicada , havia muitos casos em que o 'sabe com quem está falando?' tinha sido usado por um inferior (ou subalterno) contra outra pessoa qualquer , como identificação social vertical mediatizando o uso da fórmula , isto é , com o subordinado tomando a projeção social do seu chefe, patrão ou empregador , como uma capa de sua própria posição. Desse modo, são fartos os exemplos do empregado usando o ritual de afastamento do seguinte modo 'sabe com quem está falando?' Eu sou o motorista do Ministro!' (ou do General Fulano de Tal! Ou do Chefe do SNI!). Um caso colhido por um dos meus colaboradores e narrado pelo próprio empregado (uma doméstica) é um excelente exemplo dessas reações verticais intensas , em que existe a projeção de posição social: 'Eu tomava conta de uma fazenda de um coronel e seus subordinados gozavam da casa. Um, por causa de uma mudança de quarto , resolveu perguntar se eu sabia com quem estava falando. Mas , quando chegou o coronel, eu perguntei a ele quem mandava na casa e ele disse que era eu e o 'com quem tá falando pedir desculpas'. O poder de tais usos e a nossa familiaridade com essa forma de identificação social revelam seu impacto e a sua frequência no cenário brasileiro. [...] quanto mais alta sua posição , mais impacto ganha o uso do 'sabe com quem está falando?' pelos seus inferiores , pois o fenômeno relevante é o da projeção da posição social para mais de um indivíduo , revelando como em certas formações sociais uma determinada posição social pode recobrir mais que um indivíduo , tendendo a ser tomada como uma verdadeira instituição.[...]"

-DAMATA , Roberto. Carnavais , malandros e heróis . Rio de Janeiro, Rocio , 1994. P. 182-191. 


segunda-feira, 5 de março de 2018

Juscelino Kubitschek E O Plano de Metas



Durante  o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) , houve um grande crescimento econômico em consequência da implantação do chamado Plano de Metas . Tratava-se de um amplo programa de desenvolvimento  que previa maciços investimentos estatais em diversos setores da economia - agricultura , saúde , educação , energia , transportes , mineração e construção civil - tornando o Brasil um país atraente aos investimentos estrangeiros. Embalado por uma ideologia desenvolvimentista , o governo divulgava o objetivo de fazer o país crescer "50 anos em 5". Foi nessa época que a capital federal foi transferida do litoral para o interior , com a construção de Brasília , inaugurada em 1960. Na execução desse plano , 73% dos investimentos dirigiram-se aos setores de energia e transportes. Isso permitiu grande aumento da produção de hidreletricidade e de carvão mineral, forneceu o impulso inicial ao programa nuclear , elevou a capacidade de prospecção e refino de petróleo, pavimentação e construção de rodovias (14 970 km) , além de melhorias nas instalações e serviços portuários, aeroviários e reaparelhamento e construção de pequena extensão de ferrovias (827 km).  Paralelamente , devido aos investimentos estatais em obras de infraestrutura e incentivos do governo , houve expressivo ingresso de capital estrangeiro , responsável por grande crescimento da produção industrial , principalmente nos setores automobilístico, químico-farmacêutico e de eletrodomésticos.  O parque industrial  brasileiro passou, assim , a contar com significativa produção de bens de consumo duráveis , o que sustentou e deu continuidade à política de substituição de importações. Ao longo do governo JK consolidou-se o tripé da produção industrial nacional , formado pelas indústrias : de bens de consumo não duráveis , que desde a segunda metade do século XIX estavam se implantando , com amplo predomínio do capital privado nacional; de bens de produção e bens de capital privado nacional; de bens de produção e bens de capital , que contaram com investimento estatal nos governos de Getúlio Vargas , e de bens de consumo duráveis , com forte participação de capital estrangeiro , como vimos anteriormente. O sucesso do Plano de Metas resultou num significativo aumentou da inflação e da dívida externa. O afastamento da capital federa do centro econômico e populacional do país e a opção pelo transporte rodoviário , sistema não recomendável em países territorialmente extensos , como o nosso , marcaram economicamente o Brasil e de forma duradoura. Esses problemas dos produtos brasileiros no mercado internacional e influenciaram negativamente a nossa economia , foram identificados já a partir de meados da década de 1960 e têm consequências até os dias atuais.  Apesar da transferência da capital para o Centro-Oeste , a política do Plano de Metas acentuou a  concentração do parque industrial na região Sudeste, agravando os contrastes regionais. Com isso, as migrações interna intensificaram-se , provocando o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro. Com isso, criou-se a necessidade de melhorar a infraestrutura nas maiores. Como isso não foi atendido, os problemas foram  se acumulando e até hoje estão presentes nas paisagens urbanas. A concentração do parque industrial no Sudeste determinou a implementação de uma política federal de planejamento econômico para o desenvolvimento das demais regiões. Em 1959 , foi criada a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e , nos anos seguintes , dezenas de outros órgãos , como a Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), a sudeco (Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste) , a Sudesul (Superintendência de Desenvolvimento do Sul) e a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco), entre outras  que foram extintas ou transformadas em agências de desenvolvimento a partir do início da década de 1990.


quinta-feira, 1 de março de 2018

O Desemprego



Depois das grandes transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos trinta anos, a questão do desemprego continua sendo um dos grandes problemas nacionais. Na agricultura houve a expansão da mecanização em todas as faces - preparo da terra , plantio e colheita-, ocasionando a expulsão de milhares de pessoas , que tomaram o rumo das cidades. Na indústria , a crescente automação das linhas de produção também colocou milhares de pessoas na rua. Para ter uma ideia do que aconteceu nesse setor , basta dizer que, na década de 1980 , para produzir 1,5 milhão de veículos , as montadoras empregavam 140 operários. Hoje , para produzir 3 milhões de veículos , as montadoras empregam apenas 90 mil trabalhadores. Nos serviços , principalmente no setor financeiro , a automação dos setores produtivos e de serviços conseguiu aumentar a riqueza nacional, não provocou o aumento da quantidade de empregos- ao contrário , a modernização tem aumentado o desemprego. Esse quadro só poderá ser mudado com mais desenvolvimento econômico, afirmam alguns, outros dizem que é impossível resolver o problema na sociedade capitalista, pois , por natureza , no estágio em que se encontra , ela gera o desemprego, e não há como reverter isso na presente estrutura social; há ainda os que consideram o desemprego uma questão de sorte , de relações pessoais, de ganância das empresas , etc.  Todas as explicações podem conter um fundo de verdade , desde que se saiba a perspectiva de quem fala. Entretanto, está faltando uma explicação , que deixará claro que o desemprego não é uma questão individual nem culpa o desempregado. Essa explicação está na política econômica desenvolvida no Brasil há mais de vinte anos, até o início do século XXI. A inexistência de postos de trabalho, além das razões anteriormente apontadas , foi o resultado de uma política monetária de juros altos e, também , de uma política fiscal de redução dos gastos públicos. Nos últimos anos, essa tendência foi alterada com a queda gradativa dos juros e com o aumento dos gastos públicos. Excetuando o final de 2008 e o ano de 2009, devido à repercussão da crise financeira mundial, observa-se que há uma tendência de queda do desemprego no Brasil. Segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) , divulgada no início de 2009 pelo IBGE , a taxa de desemprego em 2008 ficou em 7,9% contra 9,3% em 2007. É o menor índice da série histórica , iniciada em 2002, que contempla os dados das regiões metropolitanas de Recife , Salvador , Belo Horizonte , Rio de Janeiro , São Paulo e Porto Alegre. A previsão que eles tiveram  para 2010 é que o nível de emprego e o aumento de renda retornarão aos patamares anteriores à crise financeira. Isso só poderá ocorrer com a ampliação da presença do Estado nos mais diversos setores - educação , saúde , segurança , transporte, cultura, esporte , lazer - , além de investimentos maciços em obras públicas (de infraestrutura , principalmente) e habituação e incentivos crescentes a todos os setores industriais , o que envolverá a contratação de milhares de pessoas. Parece que este será o grande desafio para este século: um sistema eficiente de proteção e assistência do trabalhador.


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